Sobre mitos de redação
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- há 7 horas
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Há nas redações de jornais um mito, ao qual repórteres se habituaram por exigências de editores, os mãos de-tesoura que podam textos e os enfiam em caixas de diagramas, limitando, no mais das vezes, a liberdade de pensamento que o apurador (o detentor da matéria prima) deve ter ao escrever. É uma frustração cotidiana. A isso chamasse também pasteurização da informação, realidade cada dia mais visível na imprensa - agora ainda muito agravada por ferramentas de “inteligência artificial”. Aliás, tornando o conteúdo, como bem diz a própria definição da nefasta novidade: artificial.
Se as redações de TV historicamente empobrecem a informação pela natureza imediatista do meio, como disse Jorge Luis Borges em ácida entrevista na Argentina - vocês, da televisão, matam a escrita -, os sites de jornalismo aprofundam essa crise. Teoricamente, a web oferece espaços livres para textos, mas o que se alega é que o leitor se diz sem paciência para leituras mais longas e quer título e linha fina. Daí, mais pasteurização - para suprir as necessidades do tempo reduzido imposto às pessoas pela velocidade da vida moderna. A produção de um jornalista é medida pelo número (reduzido) de toques. Caminho para a idiotização.
São cada dia mais raros os interessados em leitura caprichada. Certa vez, ouvi num almoço de avaliação de produção jornalística, feita pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para uma redação paulista, que ele gostava do ato de folhear o jornal, ler textos longos, com o contexto da notícia. Cacoetes de acadêmico que virou político sem perder a capacidade de análise que compêndios, teses e a literatura costumam oferecer...
Por tudo isso, acho que os livros seguem sendo refúgio para a expressão de conteúdos de qualidade do jornalismo. Os exemplos são muitos, felizmente. Roberto Pompeu de Toledo, Elio Gaspari, Lira Neto, Laurentino Gomes, Domingos Meirelles, Mário Magalhães, Marcelo Godoy, só para citar alguns brasileiros que recorrem ao livro como meio de informação aprofundada dos fatos. As revistas, que poderiam contribuir com textos mais elaborados, também sucumbiram.
Certa vez, na minha primeira passagem pela Revista Época, um editor me avisou que ali não haveria autoria. Viveria eu, contratado como repórter especial, de fazer relatórios a um redator, que daria forma ao conteúdo. Fiquei um mês. Covardemente, talvez, mas feliz, pedi para sair. A excessão atualmente, acho, pode ser a excelente Piauí, que publica páginas e páginas esmiuçando um determinado assunto. Que inveja!
Nos meus quase 40 anos de redações, convivi diariamente com estas restrições, sempre buscando subvertê-las. Fracassei muitas vezes, óbvio. Mas, tentei. Até consegui chegar a textos mais longos, mas nunca a uma página de cabo a rabo, como os felizardos da Piauí. Vivia prensado pela exigência da reducionista informação visual - fotos e artes. Aprendi ao longo dos anos que uma forma de burlar a “regra” da ditadura do editor era a entrevista pingue-pongue. Era quando podia defender a edição de somente uma foto do entrevistado - para estender-me com as letras. Perfis também permitiam essa "falcatrua".
Um outro mito é aquele do repórter escrevendo para o leitor. Falso. Um jornalista redige para si. Para satisfação própria com o que apurou. O leitor é apêndice, aproveita-se de uma produção individual. Borges também ensinava isso ao falar da literatura. Dizia que conhecia autores que escreviam como terapia pessoal. Às vezes, para não publicar. E, nas letras, aprendiam quem eram. Borges, aliás, leu o calhamaço de Macondo, de García Márquez, que considerava bom autor da língua espanhola - e que foi repórter, embora por pouco tempo.
Aqui, uma informação que, para mim, foi uma surpresa: Borges, que morreu em 1986, nunca leu Vargas Llosa, peruano considerado um destaque da literatura da América Latina. Certa vez, perguntaram ao argentino sobre escritores hispânicos e citaram Vargas Llosa: “Não conheço”, respondeu. Mas essa já é outra história.








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