A opinião pública não existe, diz filósofo. E a divulgação de pesquisas obedece a interesses
- Pablo Pereira
- 30 de mai. de 2025
- 2 min de leitura
A divulgação de pesquisas de opinião pública é fato incorporado ao cotidiano das pessoas e passou a ser até uma determinante de comportamentos sociais. Há hoje um "pesquisismo" no ar. É um esforço para emprestar crédito de ciência, dar aparência de indiscutível precisão à apuração de uma informação de parte como sendo do todo. Existem pesquisas sobre tudo: de vontade do consumidor, da preferência por exercícios físicos, do ânimo eleitoral do cidadão, da aprovação/reprovação de candidaturas políticas. Tudo vira "dados".
No caso das pesquisas eleitorais, com o País - e o mundo - vivendo divisão ideológica acirradíssima nos últimos anos, essa medição do humor social, via institutos de pesquisas, ganhou manchetes. Mas o tempo da confiança cega já passou. Há tremendos equívocos de cálculos. Anunciam a vitória de um; ganha o outro. Mesmo assim, percentuais seguem sendo usados na construção de ambientes de pressão, tentando criar consensos, segundo o interesse de quem financia os "levantamentos". É aí que o porquinho torce o rabo, como dizem na colônia.
Para entender um pouco mais do assunto, fui ler a respeito. Na primeira leitura, a fonte foi o livro "Questões de Sociologia", do sociólogo francês Pierre Bourdieu, um pensador preocupado com o tema. Bourdieu levou-me a uma conclusão que havia muito me rondava. Diz o sociólogo que "A opinião pública não existe". É uma marretada, pois não?
O argumento central aqui é que trata-se de uma medição indevida porque ignora a complexa construção social dos indivíduos. Não leva em conta a diversidade da formação de opiniões de uma pessoa. Iguala desiguais. Junta todos no mesmo saco. Uns medem as coisas "em centímetros e outros medem em quilômetros", argumenta o autor, questionando a prática das sondagens. Para ele, o problema nem é a estatística, mas a qualidade da informação e uso dos dados. Bourdieu adverte que devemos observar, sim, um aspecto que ele considera mais relevante: descobrir o que está por trás da pesquisa.
"Digo simplesmente que a opinião pública, na acepção implicitamente admitida por aqueles que fazem sondagens de opinião ou pelos que utilizam os seus resultados, digo simplesmente que essa opinião não existe", crava o sociólogo.
Bueno, se a ideia de que as opiniões se equivalem é falsa; se pesquisas de opinião montam mundos conforme os interesses do patrocinador, se destacam o dado que mais lhes interessa e falsificam consensos para alterar comportamentos de massa, conclui-se que dar valor de VERDADE a esses resultados deve ser uma sandice - ou deslavada malandragem.
Quer saber mais sobre o assunto? Leia o livro ou pergunte ao professor Clóvis de Barros Filho, que tem um curso de introdução ao pensamento de Pierre Bourdieu.









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